A grande Nina Simone cantou “Ah, to be young, gifted and black, oh what a lovely precious dream…”(ah, ser jovem, talentosa e Negra, que sonho precioso e amável)! Tem algo de mágico em celebrar quem nós somos de verdade. Ainda mais quando se é uma mulher, afro-latina, caribenha e diaspórica. Trazemos muito para a mesa.
Podemos ser cientistas brilhantes, modeleiras habilidosas, futurologistas, artistas, cuidadoras. Semeamos caminhos, retomamos habilidades ancestrais, dominamos a tecnologia social da alegria, herdamos milhares de histórias não contadas de resistência, invenção e imaginação por um futuro melhor.
Demonstramos resiliência. Dominamos o pensamento complexo, orientado por mil mapas mentais físicos e simbólicos de vielas, palafitas, quilombos. Praticamos a criação de realidades altivas e alternativas. Fazemos plantios de sonhos e condições para o bem-viver. Buscamos as fundações para relações mais saudáveis e verdadeiras. Não esquecemos que precisamos de fatos, de avanços na vida concreta, para que possamos de fato assegurar a vida de outras mulheres como nós.
Temos nossa própria intelligentsia. Temos a Jaqueline Fernandes, fundadora do Festival Latinidades Afrolatinas, o maior festival de mulheres negras da América Latina. Temos Shaina Silva, fundadora do movimento She Builds The Future, no Haiti. Temos minha avó Chiquinha, empresária ambulante de brinquedos e artigos de beleza. Temos Jovelina Pérola Negra, Carla Akotirene, Marina Silva, Zezé Mota.
Somos feitos de realeza alegre e indestrutível. Somos diferentes – entre nós e dos que normalmente ocupam lugares de privilégio social. Somos capazes de entender finanças climáticas e as dinâmicas do movimento hip hop, dançar jongo e aconselhar CEOs, entender a tomada de decisões do Diretor da Fintech e do movimento social que o acompanha, critica, desafia.
Mulheres afrolatinas e caribenhas combinam o potencial para excelência na ciência aprendida, e gabaritos profundos nas ciências da vida. Na contra-arquitetura das estruturas de violência que combinaram de nos matar. Estar viva é contra-arquitetar, encontrar jeitos e caminhos – uma mulher afro-latina e caribenha viva sabe muito. Carregamos o sonho de liberdade dos cantos e rezas de Bois Caïman. E o manifestamos em toda a superação que produzimos no caminho para uma vida livre e plena, seja lá qual conceito de liberdade e plenitude tenha florescido no coração de cada uma. Sabemos as estruturas que nos comprimem por senti-las contra nossos braços e pernas, e não apenas de relatos e estudos. Senioridade vivencial.
Mas, especialmente, nos lugares de privilégio que penetramos e que nos esforçamos para democratizar, realmente contrastamos, somos vistas como diferentes. Este texto é para reforçar que esta é uma diferença boa. Que além dos saberes técnicos e dos nossos ofícios, trazemos muita coisa para a mesa. E que estes conhecimentos são necessários e valiosos para nossas construções coletivas. Para além do nosso direito ao acesso, ao protagonismo e ao brilho, como tem qualquer pessoa humana.
Eduardo Galeano disse que a América Latina é feita de um povo sem pernas, mas que caminha. Só que quem caminha sem pernas, é porque sabe voar. E estas somos nós, mulheres afrolatinas e caribenhas. Feliz nosso dia!
CEO Nossa Terra Firme Consultori e Agente MUDA