Dia Internacional contra a Discriminação Racial
Por Mônica Fernandes*
Em 21 de março, celebramos o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, uma data que nos convida a refletir sobre as desigualdades estruturais que ainda afligem milhões de pessoas ao redor do mundo. A data foi estabelecida pela ONU em 1966, após o massacre de Sharpeville, na África do Sul, um marco de resistência contra o apartheid. Desde então, tem sido um lembrete anual da necessidade de erradicar o racismo em todas as suas formas e garantir a igualdade de direitos para todos. No Brasil, a luta contra a discriminação racial ganha contornos ainda mais urgentes, em razão da desigualdade histórica que perpassa todos os âmbitos da vida social, política e econômica. Entre os grupos mais afetados estão as mulheres negras, que enfrentam um duplo fardo — o da discriminação racial e o da opressão de gênero. Segundo o IBGE, as mulheres negras no Brasil ganham, em média, 56% do salário de um homem branco, revelando um abismo alarmante de desigualdade econômica.
Neste contexto, as ações de combate à discriminação racial não são apenas necessárias, mas essenciais para a construção de uma sociedade mais justa. O enfrentamento do racismo no Brasil deve começar pela conscientização de que ele é um fenômeno estrutural, refletido em nossas instituições, normas e atitudes cotidianas. Para isso, é urgente que mais ações concretas sejam realizadas, principalmente no que se refere ao fortalecimento da autonomia econômica de mulheres negras, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade. O empreendedorismo é uma das formas mais poderosas de proporcionar essa emancipação, e o fortalecimento da autoestima e do autoconhecimento são etapas fundamentais para que essas mulheres possam assumir o controle de suas vidas e impactar positivamente suas comunidades.
A Empoderar-Te, organização voltada para a redução das desigualdades de gênero e raça e para a promoção da autonomia econômica de mulheres das classes C, D e E, tem desempenhado um papel crucial nesse processo. Acreditamos que a transformação das realidades sociais começa no fortalecimento do indivíduo, especialmente por meio do resgate da identidade e da autoestima, processos que empoderam as mulheres negras a superar as estruturas opressivas que as marginalizam. Só após esse trabalho de fortalecimento pessoal, focamos no desenvolvimento de competências empreendedoras que visam não apenas a criação de negócios sustentáveis, mas também a geração de impactos sociais positivos. A nossa abordagem, centrada no letramento racial decolonial, é fundamental para proporcionar o entendimento necessário para desconstruir as estruturas de desigualdade e criar novas oportunidades.
O racismo estrutural no Brasil é um obstáculo significativo ao progresso econômico e social. Ele se manifesta em diversas esferas, como no mercado de trabalho, no acesso à educação e à saúde, perpetuando a exclusão de uma parte significativa da população. Esse ciclo de marginalização impede o pleno desenvolvimento de indivíduos e da sociedade como um todo. Além disso, o racismo tem um custo econômico direto, pois restringe o potencial de uma parte substancial da população, que poderia contribuir de maneira criativa e inovadora para o crescimento do país. Estudos indicam que, se a desigualdade racial fosse reduzida, o Brasil poderia alcançar taxas de crescimento econômico mais altas, além de promover uma sociedade mais próspera e justa para todos.
Portanto, é imperativo que as ações de combate à discriminação racial avancem para além da conscientização, traduzindo-se em mudanças práticas que desconstruam as barreiras que impedem a plena participação de todos os cidadãos. A mudança sistêmica requer um movimento coletivo e uma postura de liderança que desafie e altere as estruturas que perpetuam as desigualdades. O movimento Agente MUDA, por exemplo, representa um espaço onde lideranças comprometidas com a transformação social e econômica buscam reescrever as regras do jogo. Fomentamos práticas de colaboração entre lideranças, com a missão de promover uma mudança estrutural no sistema econômico e social vigente, onde a equidade racial e de gênero seja a base para qualquer transformação. As lideranças, dentro da comunidade, compartilham propósitos comuns, que são decolonialidade, antirracismo, colaboração extrema e busca a reestruturação da sociedade a partir das suas raízes.
Na minha atuação local, essa mudança começa com o empoderamento das mulheres negras, colocando-as não apenas como vítimas do sistema, mas como líderes capazes de gerar soluções inovadoras para os desafios sociais e econômicos que enfrentam. No contexto da Agente MUDA, somos inspiradas a valorizar as lideranças, colocando elas como protagonistas da transformação social, liderando negócios e iniciativas que contribuem para um futuro mais justo, inclusivo e regenerativo. Ao investir no fortalecimento dessas lideranças, podemos criar um ambiente propício para a mudança das regras do jogo, onde a justiça social seja alcançada não apenas para uma, mas para todas as pessoas.
A luta contra a discriminação racial, especialmente contra as mulheres negras, é um desafio que exige ação coletiva e comprometida. No Dia Internacional contra a Discriminação Racial, devemos reafirmar nosso compromisso com a transformação estrutural da sociedade, apoiando a liderança e a autonomia das mulheres negras como um passo fundamental para a construção de um Brasil mais igualitário e próspero para todos.
Mônica Fernandes é fundadora da Empoderar-Te, especialista em Empreendedorismo Social e Negócios de Impacto, membro da Assembleia do Child Fund Brasil e do Conselho da Coalizão pelo Impacto.