“A biodiversidade é fundamental para o bem-estar humano, para um planeta saudável e para a prosperidade econômica de todas as pessoas. Inclusive para viver bem, em equilíbrio e em harmonia com a Mãe Terra, pois dependemos dela para alimentação, medicamentos, energia, ar e água limpos, segurança contra desastres naturais, além de recreação e inspiração cultural — e ela sustenta todos os sistemas de vida na Terra.”
O texto acima, é extraído da carta de abertura do Arcabouço para a Biodiversidade, produzido na COP15 em 2022. Apesar desse reconhecimento da importância vital da biodiversidade para a preservação da vida na Terra, o Panorama Global da Biodiversidade, assim como muitos outros documentos científicos, demonstrou de maneira inequívoca que, apesar dos esforços em andamento, a biodiversidade está se deteriorando em todo o mundo a taxas sem precedentes na história da humanidade.
A biodiversidade — a diversidade dentro das espécies, entre as espécies e dos ecossistemas — está diminuindo mais rapidamente do que em qualquer outro momento da história humana. Uma média de cerca de 25% das espécies em grupos avaliados de animais e plantas estão ameaçadas, o que sugere que cerca de 1 milhão de espécies já enfrentam risco de extinção.
Os fatores diretos de mudança na natureza com maior impacto global têm sido as mudanças no uso da terra e do mar, a exploração direta de organismos, as mudanças climáticas, a poluição e as espécies exóticas invasoras.
O Brasil é o país com maior biodiversidade do planeta, classificado como um país megadiverso. Estima-se que abriga entre 15% e 20% da biodiversidade mundial. Mais de 120 mil espécies de invertebrados, 9 mil espécies de vertebrados, 46 mil espécies de plantas e mais de 3 mil espécies de peixes de água doce. Além disso, grande parte da biodiversidade brasileira é endêmica, ou seja, só existe no Brasil.
O Brasil tem também em seu território biomas únicos como a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, o Cerrado, que é considerado nossa savana tropical, berço dos nossos rios, a Caatinga, bioma semiárido exclusivo do Brasil, o Pantanal, que é a maior planície alagável do mundo, a Mata Atlântica e o Pampa.
Além dessa exuberância, o Brasil é dotado de uma vasta extensão territorial de costa, cerca de 9200km se consideramos reentrâncias e saliências, banhando 17 dos 26 estados brasileiros e uma das 20 maiores do mundo. Nossos ecossistemas costeiros e marinhos abrigam cerca de 10% dos manguezais do mundo – fundamentais para peixes, crustáceos e proteção costeira, além de serem importantes sumidouros de carbono. Nossos recifes de coral possuem formações que são verdadeiros santuários ecológicos. Temos praias e estuários que são ambientes de reprodução de aves, tartarugas e peixes, além da chamada Amazônia Azul, o mar profundo que é rico em biodiversidade, e ainda tão pouco conhecido.
As principais ameaças à Biodiversidade Brasileira incluem o desmatamento, que caiu nos últimos anos, mas continua devastador, especialmente na Amazônia e Cerrado. A expansão agropecuária, com o avanço de monoculturas e pastagens que estão diretamente associadas ao desmatamento, correlação que ficou evidente no mais recente relatório anual de desmatamento do MapBiomas em 2024. As mudanças climáticas que alteram habitats e padrões de migração e promovem o branqueamento de corais. As espécies invasoras que ameaçam ecossistemas nativos e a poluição como a contaminação por agrotóxicos, mineração e resíduos urbanos. Nos ecossistemas marinhos a acidificação dos oceanos enfraquece organismos vitais como plânctons, moluscos e corais, a sobrepesca e a pesca predatória reduzem populações e colocam em risco os estoques de pescado em todo mundo, e a exploração de petróleo e mineração submarina ameaçam ecossistemas de profundidade ainda pouco conhecidos.
Mas toda essa análise da biodiversidade está ainda ancorada na percepção utilitarista e fragmentada da biodiversidade, da natureza e da vida que permeia nossa visão de mundo eurocentrada e iluminista.
A biodiversidade, do ponto de vista biológico, é definida como a variabilidade entre os organismos vivos de todas as origens, incluindo diversidade genética, de espécies, de ecossistemas. A biologia da conservação trabalha com biodiversidade visando medir e classificar a diversidade biológica (taxonomia, genética, ecologia), entender a função ecológica das espécies nos ecossistemas, avaliar extinções, perda de habitat, invasões biológicas. As ferramentas são ancoradas em métodos quantitativos como censos, sequenciamento genético, índices de diversidade. Há todo um enfoque em “serviços ecossistêmicos” tais como polinização, purificação da água, regulação do clima, e há o uso frequente de metáforas de “capital natural” e “recursos biológicos”.
Em que pese sua importância para a produção de conhecimento como o definimos em nossa sociedade, na abordagem científica, a biodiversidade é tratada como objeto de estudo, controle e gestão. A vida é observada “de fora”, fragmentada em componentes que podem ser contados, comparados e muitas vezes monetizados.
Há uma redução da vida ao mensurável.
Isso é profundamente diferente de como culturas ancestrais e originárias lidam com a biodiversidade, sua concepção e a relação que estabelecem com essa ideia.
Povos originários vivem a biodiversidade de dentro, como parte dela. Eles não apenas conhecem espécies — eles se relacionam com elas, atribuem nomes, histórias, afetos, tabus, funções espirituais. A diversidade é vivida, e não apenas descrita.
Povos originários consideram inseparáveis saber e fazer; ser e cuidar; vida e território.
A diversidade não é uma coleção de recursos, mas uma rede de relações sagradas. Ao ignorar isso, a ciência torna a biodiversidade uma abstração lógico-racional, e não uma trama viva e ética.
A ciência ocidental geralmente separa o conhecimento biológico do conhecimento tradicional. Quando se apropria desse último (como no caso da bioprospecção), muitas vezes extrai o “dado útil” (como um princípio ativo), ignorando o contexto cultural, espiritual e territorial onde ele faz sentido. Há uma sistemática invisibilização de saberes e práticas tradicionais.
A ciência ainda comete o equívoco de promover políticas de “conservação da biodiversidade” excluindo os povos que a mantêm viva, mesmo tendo evidências em inúmeros estudos que reconhecem que os territórios indígenas e quilombolas são os que mais preservam a biodiversidade globalmente, com taxas menores de desmatamento e maior resiliência ecológica. É fundamental que a ciência perceba que não basta conservar espécies — é preciso conservar os modos de vida que conservam a vida.
A biodiversidade, na sua dimensão bio, implica coexistência entre espécies com direitos e presenças próprias. Os seres da floresta, os animais, as águas, os solos — todos têm agência. Eles deveriam ser tratados como sujeitos com os quais se convivem, se fazem acordos, se aprende, se compartilha o mundo. Nas cosmovisões ancestrais, a caça, a pesca, a coleta — tudo é feito com rituais e cuidado para não romper a reciprocidade. Não existe a ideia de “domínio sobre a natureza”, mas de “pertencimento à teia da vida”.
Isso gera uma ética radicalmente diferente da lógica produtivista e tecnocrática: não se vive da natureza, vive-se com ela.
A biodiversidade é a base dos sistemas de cura tradicionais, que envolvem plantas medicinais com usos muito específicos, que consideram não só a espécie, mas o tempo do corte, o local da coleta, o ritual do preparo. Em seus modos de vida regenerativos, os povos tradicionais manejam a diversidade não apenas para preservar, mas para regenerar — a diversidade é cultivada, estimulada e protegida como fonte contínua de vida.
Essa dimensão se opõe à lógica da indústria farmacêutica, que extrai princípios ativos isolados, descontextualizando a vida e o saber que os sustenta.
A diversidade, para os povos originários, é o modo como a vida se mantém viva — uma trama sagrada de relações, responsabilidades e histórias. Preservar a biodiversidade, portanto, não é um ato técnico ou ecológico apenas, mas um compromisso ético com a continuidade do mundo.
Nessa perspectiva, a diversidade não é só natural, é ética. É necessário cultivar a diferença, escutar outras vozes. A monocultura (seja de planta, de pensamento ou de cultura) é uma forma de empobrecimento intelectual, espiritual e material.
A dimensão “bio” da biodiversidade a partir da perspectiva dos povos originários e quilombolas nos leva a entender a vida como um princípio relacional e interdependente, muito diferente da abordagem biomédica, mecânica ou econômica com que a biodiversidade costuma ser tratada no pensamento ocidental.
Nas cosmovisões originárias, a diversidade é um fundamento da vida. A vida não existe sem diversidade. A multiplicidade de seres, formas, vozes, ciclos e saberes é o que garante o equilíbrio do mundo. Não se trata de acumular variedades, mas de reconhecer que a vida só se sustenta em rede, em relação, em troca. Cada ser tem um papel, um lugar, uma função. Animais, plantas, rios, pedras, ventos e humanos compõem um sistema de interdependência. A diversidade não é passiva — ela age, comunica, ensina, orienta. A escuta e o respeito por essa multiplicidade são práticas de sabedoria e sobrevivência.
A diversidade também é um ato político e de resistência ao monocultivo e à homogeneização. Frente à colonização, ao agronegócio irresponsável, ao extrativismo predatório e à imposição de modos de vida únicos (disseminados como “progresso”). Os povos originários defendem a diversidade como condição para manter seus modos de viver (culturas, línguas, rituais, saberes), seus territórios e a liberdade de existir à sua maneira e a sustentabilidade real, enraizada no respeito aos limites naturais.
A natureza pode ser conservada, restaurada e integrada à necessidade humana de existir dignamente. Isto pode, e deve, ser feito ao mesmo tempo em que as desigualdades são reduzidas em todo o mundo por meio de esforços urgentes e coordenados localmente que promovam mudanças transformadoras.
Isso só será possível se repensarmos profundamente nosso modo de vida e encontrarmos caminhos para que todos possamos estar neste planeta de maneira mais harmônica com essa teia da vida. A maneira mais inteligente de encontrar esses caminhos é aprendermos com quem já sabe como fazê-lo.
“Se para os humanistas o “um” é o universo, para nós só há “um” porque há mais de um. Quando dizemos “globo”, estamos englobando e, ao mesmo tempo, reconhecendo individualidades que existem dentro do globo. Essa é uma questão germinante, que precisa ser tratada e cultivada.”
Trecho do livro A terra dá, A terra quer de Antônio Bispo dos Santos
Por Andrea Alvares – Agente MUDA e liderança do fundo FamaGaia Sociobioeconomia