Por Rodolfo Bonifácio | Agente MUDA e Facilitador de Processos
Liderar também significa deixar morrer, e talvez o dia de hoje seja um convite para abandonarmos, ainda que por instantes, a nossa busca ansiosa por modelos importados e narrativas estrangeiras. A ideia aqui nem é falar da chamada síndrome de vira-lata, até porque o vira-lata caramelo já percebeu há tempos sua própria beleza, mesmo caminhando entre buracos de rua e mazelas sociais. O ponto é outro: não se trata de rejeitar o que vem de “fora”, nem de romper vínculos globais, mas de reconhecer que existem feridas profundas em nossa Pindorama que, se olhadas com coragem, podem revelar aprendizados que frameworks estrangeiros não conseguem alcançar.
O Brasil profundo pulsa em nós com histórias que atravessam gerações e talvez o nosso maior ato de coragem e inovação seja olhar para os Brasis e se pertencer. O Brasil profundo pulsa em nós com histórias que atravessam gerações. E hoje, no Dia do Folclore, é importante lembrar e demarcar: o folclore brasileiro não é apenas festa ou memória folclórica, mas pedagogia viva. São narrativas que não pertencem a um único autor, mas a uma ideia de povo. Histórias que ensinam a conviver, a cuidar, a re- existir.
O Curupira nos lembra da responsabilidade com os caminhos e com as próximas gerações. A Iara nos convoca à escuta atenta do que emerge das águas profundas. O Saci nos mostra que é possível rir do inesperado e transformar obstáculos em criatividade.
Esses mitos não falam do passado apenas: eles nos apontam futuros, pra quem acredita em futuros. Futuros, que precisam ser vistos a curto prazo, onde liderar não é só administrar métricas, mas tecer narrativas que celebrem as diversidades, que acolham o invisível, que reconheçam nossas interdependências.
E como trazer isso para a prática da liderança?
- Reserve espaços de escuta genuína em cada encontro, valorizando a pluralidade de vozes.
- Traga metáforas e símbolos da nossa cultura popular para inspirar equipes e criar pertencimento.
- Reflita sobre suas decisões considerando não só o imediato, mas também as próximas gerações.
- Reaprenda a celebrar em roda, criando momentos coletivos que ressignificam o trabalho e o tempo.
- Cultive símbolos e histórias que ajudem as pessoas a caminhar em comunhão, não apenas a produzir mais.
Liderar no Brasil é reconhecer que a sabedoria está em nossas próprias águas, mitos e cantos. É aprender a dançar com as histórias que nos formam e contar novas histórias de uma abordagem radial e delicada para mudanças.
Faz sentido? Ou melhor, te faz sentir?
Seguindo o ensinamento da liderança Agente Muda Ubiraci Pataxó, talvez seja hora de deixar de buscar o norte. É no leste que o sol desponta, e com ele, a chance de novos começos. Se esse tema te despertou curiosidade, aqui vão três dicas para se aproximar das narrativas que atravessam o nosso Brasil profundo:
Podcast: O Pavulagem traz mitos, oralidades e histórias da Amazônia de um jeito envolvente, mostrando como o folclore segue vivo e pulsante. E vale lembrar: cada bioma do Brasil guarda seus próprios encantados e saberes.
Filme: Para quem gosta de cinema, vale assistir A Lenda do Uirapuru. E, se quiser algo mais atual, Amazônia Sociedade Anônima ( tem no youtube, dirigido por Estevão Ciavatta), que provoca reflexões sobre encantamento, território e futuro.
Leitura: O artigo Lugar de memória: os mitos e as lendas na construção de identidades, de Cícero Bruno Barros Nascimento, fala sobre como os mitos e as lendas ajudam a formar identidades culturais, tendo a oralidade como guardiã da memória.