Acervo e Literatura

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A humanidade é maior do que uma nação

Por Clefaude Estimabile – Agente MUDA, psicólogo terapeuta e mediador intercultural.* 

Primeiramente gostaria de agradecer aos brasileiros e brasileiras que têm me acolhido desde a minha chegada nesta terra de uma forma humanizada. Estar na Agente Muda é um privilégio por poder  compartilhar esta reflexão sobre o que significa ser migrante e suas implicações  na vida quotidiana. Seja  na saúde mental, na economia, na educação e no social, especialmente com essa política desumana do Presidente estadunidense Donald Trump. 

O ano de 2025 iniciou com uma preocupação alarmante no que diz respeito à democracia. Desde o dia 10 de janeiro com a posse de presidentes em países da América Latina e também nos Estados Unidos, a democracia e os direitos humanos vêm sofrendo grande ameaça. Ameaça essa que preocupa não apenas uma nação, mas toda a América Latina.  A humanidade deu grandes passos à frente na sua história, mas parece que toda caminhada trilhada por mãos comprometidas com a mudança, está sendo desconsiderada e deixada para trás.  Hoje estamos vivendo uma época em que os representantes políticos esqueceram que a humanidade é maior do que uma nação.

Um Estado nação, por maior que seja, tem fronteiras, mas a humanidade não tem fronteiras. Diante disso,  cabe perguntar o que significa realmente a Declaração dos Direitos Humanos que tanto pregaram? Dá impressão que a declaração não abordou os direitos de todas as pessoas, mas apenas os direitos dos cidadãos de alguns países colonizadores que acham que são donos do mundo. 

Migrar é um direito e foi reconhecido na Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável. Tanto que, a  migração  está em várias metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Assim, faz parte da meta  que facilita uma  mobilidade humana ordenada, segura, regular e responsável, inclusive através da implementação de políticas de migração planejadas e bem gerenciadas.  

De acordo com o filósofo indiano Prabhat Ranjan Sarkar “ Todas as pessoas são cidadãos do mundo por um direito de nascença, cada pessoa humana tem o direito a mover-se e viver em qualquer lugar (…), independente da sua condição migratória, o fato que todos são cidadãos e que ninguém é ilegal nessa terra. A pessoa pode estar indocumentada, que é outra questão.

Diante disso, a política de deportação em massa  de Donald Trump desumaniza e coloca em cheque a relação diplomática entre outros países. Milhares de pessoas de diferentes nacionalidades atravessam as fronteiras entre México e os Estados Unidos em busca de uma vida melhor. E de repente, adultos, jovens e crianças foram deportados de maneira humilhante, algemados , acorrentados  (no caso dos brasileiros). Essas pessoas enfrentam não apenas um deslocamento forçado do ponto de vista físico, mas também experimentam inteiramente um deslocamento forçado mental, isso porque possuem não só aspectos físicos, mas também emocionais, espirituais e sociais. 

Portanto, esses corpos, esses aspectos, também se deslocam forçadamente. Assim, no fundo de cada pessoa deportada, perder aquele propósito que estava construindo, aquele sonho que estava sendo realizado e de repente sem ter nada que possa fazer é obrigada a deixar tudo para trás.

Neste cenário, considerando a importância que a psicologia tem para o bem-estar mental de uma pessoa, o acolhimento humanizado pode contribuir para ampliar a sua autoestima, criando estratégias de intervenção mais efetivas para lidar com as implicações psicológicas que a deportação em massa do governo de  Donald Trump pode trazer.

*Clafaude é haitiano e vive no Brasil há 9 anos. Trabalha em um programa de acolhimento e integração aos migrantes e refugiados da Cáritas Regional Paraná.

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